Durante anos, dia após dia, ele repetia sempre o mesmo processo, três batidelas na mesinha de cabeceira, acompanhadas dos famosos números, que apesar das minhas queixas e mau humor matinal, me faziam arregalar os olhos, esperando impacientemente o número final, para puder saltar da cama e mostrar-lhe mais uma vez que lhe ia ganhar de novo . Na verdade nunca me cansava de o fazer.
Quando o ouvia chamar o meu nome, virava as costas, resmungava ou simplesmente fazia de contar que o meu sono era bastante pesado para ele me puder acordar com uma simples chamadela, e deixava-me ficar. No entanto, o meu avo sempre me conheceu suficientemente bem para saber que era tudo fingido e começar o jogo mesmo sem o meu consentimento. Não ficava chateada, nem rabugenta, por muitas que fossem as reclamações ao ele anunciar o jogo.Adorava. Adorava porque o meu avo sempre teve o dom de me fazer sorrir e de me acalmar quando mais ninguem o conseguir fazer, de me levar a fazer as coisas que ele considerava certas e eu erradas, tal como este jogo.
Não gostava de acordar cedo, isso é um facto, mas ele arranjou uma forma pouco normal e animada de o fazer. Por isso, mesmo contra minha vontade, não conseguia deixar de sorrir quando ele começava a contagem, de me preparar para dar o pulo para o começo de um novo dia .
Neste dia, tal como em todos os fins de semana de verão, era dia de ir para a praia. Acordar as 7h da manhã, preparar, apanhar o autocarro, depois o comboio, outra vez o autocarro, até chegar ao destino. Isto quando ia de comboio, porque quando ia de carro, o entusiasmo já não era tão grande. E como no dia anterior o meu pai tinha dito que iamos de carro,praticamente ignorei o meu avo quando ele me chamou da primeira vez. A minha avo aparecer, foi uma forma de estabelecer uma especie de negociação : eu levanto-me contra minha vontade e voces vão de comboio contra a vossa vontade. Não estava a ser uma menina mal comportada nem chantagista, simplesmente era uma forma de levar a minha avante.