quinta-feira, 5 de maio de 2011

I

Perante a minha enorme dificuldade em me levantar cedo, o meu avo, arranjou uma técnica simples e eficaz de me "arrancar da cama" ao inventar este jogo . 
Durante anos, dia após dia, ele repetia sempre o mesmo processo, três batidelas na mesinha de cabeceira, acompanhadas dos famosos números, que apesar das minhas queixas e mau humor matinal, me faziam arregalar os olhos, esperando impacientemente o número final, para puder saltar da cama e mostrar-lhe mais uma vez que lhe ia ganhar de novo . Na verdade nunca me cansava de o fazer. 
Quando o ouvia chamar o meu nome, virava as costas, resmungava ou simplesmente fazia de contar que o meu sono era bastante pesado para ele me puder acordar com uma simples chamadela, e deixava-me ficar. No entanto, o meu avo sempre me conheceu suficientemente bem para saber que era tudo fingido e começar o jogo mesmo sem o meu consentimento. Não ficava chateada, nem rabugenta, por muitas que fossem as reclamações ao ele anunciar o jogo.Adorava. Adorava porque o meu avo sempre teve o dom de me fazer sorrir e de me acalmar quando mais ninguem o conseguir fazer, de me levar a fazer as coisas que ele considerava certas e eu erradas, tal como este jogo. 
Não gostava de acordar cedo, isso é um facto, mas ele arranjou uma forma pouco normal e animada de o fazer. Por isso, mesmo contra minha vontade, não conseguia deixar de sorrir quando ele começava a contagem, de me preparar para dar o pulo para o começo de um novo dia . 
Neste dia, tal como em todos os fins de semana de verão, era dia de ir para a praia. Acordar as 7h da manhã, preparar, apanhar o autocarro, depois o comboio, outra vez o autocarro, até chegar ao destino. Isto quando ia de comboio, porque quando ia de carro, o entusiasmo já não era tão grande. E como no dia anterior o meu pai tinha dito que iamos de carro,praticamente ignorei o meu avo quando ele me chamou da primeira vez. A minha avo aparecer, foi uma forma de estabelecer uma especie de negociação : eu levanto-me contra minha vontade e voces vão de comboio contra a vossa vontade. Não estava a ser uma menina mal comportada nem chantagista, simplesmente era uma forma de levar a minha avante. 

terça-feira, 3 de maio de 2011

I

"Se fui uma criança feliz ? A minha maneira,, com uma dose de avo a mistura para completar os dias quase perfeitos, transformando-os em dias mais que perfeitos .  "


Nenhuma criança, de maneira geral, gosta de acordar cedo,particularmente a um sábado de manhã e eu não era excepção. Por isso, quando num sábado de verão ouvi a voz do meu voz exclamar : - Quando eu contar até 3 o jogo começa! , puxei um pouco mais o lençol, formando uma bola com o meu próprio corpo debaixo deste, deixando-me ficar muito quieta, com a esperança tola que ele desistisse.
De repente, senti alguém puxar o lençol lentamente para trás. Abri um olho, tentando espreitar de forma discreta, vendo a minha avo também a espreitar com um sorriso encorajador no rosto, ao que acabei por murmurar :
-Esta bem! Mas só se formos de comboio.
Vi a minha avo piscar-me o olho e dar um toque no ombro do meu avo que estava deitado na cama ao lado da minha.
-Estas pronta ?
Não respondi, mas puxei o lençol para trás, pondo a cabeça de forma a ele me ver.
-Vou considerar isso um sim  - riu o meu avo perante a minha pouca vontade de me levantar, algo que sempre me foi bastante característico -  Então aqui vai, 1, 2, 3 !
Pulei de cama,ainda o meu avo não tinha acabado de pronunciar o número três, correndo pelo quarto direita a cómoda onde estava o fato de banho, enquanto a minha avo punha a minha roupa para aquele dia em cima da cama, uma táctica infalível para ganhar ao meu avo no jogo do quem se levanta mais rápido.
-Avo, ganhei !- Gritava enquanto corria de novo para o quarto, ajeitando a roupa, levando a minha avo no meu encalço para me atar o cabelo num rabo de cavalo, mostrando-lhe como era de facto rápida a vestir-me .
-Tu e a tua avo são umas batoteiras- dizia ele, tentando manter um ar sério perante a visível derrota fraudulenta de que tinha sido alvo. Eu olhava para a minha avo com cumplicidade enquanto ela se ria as gargalhadas.     

Dedicatória

Aos meus heróis: Avo Augusto por ter sido o meu guardião, como também um homem e um avô fantástico! E ao meu primo , um exemplo de força e de esperança, sendo pois o meu maior orgulho. Amo-vos aos dois, e este livro é inspirado em vós e no que me ensinaram perante a vida.
Que as minha palavras cheias de verdade, cheguem até vós no céu .

terça-feira, 15 de março de 2011

Prólogo :




Coimbra, Fevereiro de 2009

Avó:

Ontem tive um pesadelo. Acordei a tremer, com gotas de suor a encharcarem-me o corpo e lágrimas nos olhos. 
Eram quatro da manhã quando acordei, e o resto da madrugada foi passada com um sono agitado que me fazia acordar novamente e ficar sentada na cama, abraçando os joelhos, enquanto mais lágrimas anunciavam a sua chegada.
Neste pesadelo, repetição de tantos outros, existiam pequenas falhas, semelhanças mas também  diferenças. Vocês estavam do outro lado da estrada como sempre acontece, mas havia mais alguém. Normalmente consigo vos ver com nitidez, é certo que não consigo atravessar a estrada, pois há sempre algo que me impede de o fazer, mas no entanto consigo ver-vos ! 
Desta vez é ai que as semelhanças se perdem, pois eram tantos carros, havia uma multidão de pessoas que me impedia de ver com clareza o outro lado da estrada, que me empurrava para longe do lugar onde vocês se encontravam, e apesar de todas as dificuldades de visualização, tenho a certeza que estava lá outra pessoa. Isso mete-me um medo terrível, fico tonta e numa casa pequena demais para os meus sonho, estes dissolvem-se no vapor do banho e desfazem-se na palma das minhas mãos, e é então que me sinto cambalear e acabo por tombar lentamente no chão, deixando-me naufragar no país das lágrimas. 
Quem será a outra pessoa ? Estará relacionado com Abril que apesar do aviso prévio me vai apanhar completamente desprevenida ? 
As vezes acordo de noite e estendo a mão para fora dos lençóis, procurando a tua mão no escuro, mas o que encontro é apenas o vazio.

Com amor da tua neta, Otília Ventura.


Olá.

Criei este blog, para fazer uma tentativa : começar a escrever o tal livro que sempre quis escrever :)
Já tenho alguns rascunhos, ideias em mente para o desenrolar da história e decidi que era altura de tentar.
Espero que gostem :b